sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Filmes: "Os Oito Odiados"

TARANTINO DOS BONS

Estranhamente, não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo que demonstra a dificuldade que muitos tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade

- por André Lux, crítico-spam


Seis filmes depois do revolucionário “Pulp Fiction”, o diretor e roteirista Quentin Tarantino finalmente volta a acertar o alvo com “Os Oito Odiados” (a tradução correta deveria ser “Os Oito Odiosos”), uma homenagem-paródia aos lendários spaguethi-westerns italianos, cujo maior autor foi o grande Sergio Leone.

Quem acompanha minhas críticas sabe bem que não entro nessa onda de ficar babando o ovo de qualquer cineasta só porque ele fez um grande filme e aí todo mundo, especialmente muitos críticos, sentem-se obrigados a rasgar elogios para qualquer coisa que lançam depois, correndo o risco, caso não emitam uma opinião positiva, de serem chamados de burros ou outros adjetivos ainda menos cordiais.

Assim, apesar de considerar “Pulp Fiction” um dos meus 20 filmes favoritos, não entrei no vagão que louvou todos os outros filmes que Tarantino produziu depois. Por isso sinto-me bem à vontade para dizer que “Os Oito Odiados” é seu melhor filme desde “Pulp Fiction” e tão bom quanto. Tudo que o cineasta tentou imprimir em seus outros filme está presente aqui, só que de forma primorosa. Os diálogos afiados, o humor (muito) negro, a porrada no racismo e, claro, a violência exagerada que são suas marcas registradas, porém poucas vezes atingidas com o sucesso aqui alcançado.

O filme tem mais de três horas de duração, mas parece que não dura nem uma hora (e olha que já vi duas vezes e a sensação é a mesma), o que é sempre um grande elogio. Tarantino é um dos últimos diretores de cinema no sentido literal do termo, do tipo que sabe construir clima, usar pausas e lapidar os enquadramentos de forma artística. Mas com a exceção de “Pulp Ficton”, “Cães de Aluguel” e agora em “Os Oito Odiados”, desperdiçou tudo isso nos seus filmes subsequentes em favor de um egocentrismo e uma pretensão desmedida que acabaram deixando de lado a estória em favor dos maneirismos do cineasta, fatores que só servem para diluir o impacto das cenas e alongar a projeção desnecessariamente, como aconteceu em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”, principalmente. 


Esse oitavo longa de Tarantino traz pela primeira vez uma trilha musical original composta por ninguém menos do que o grande Ennio Morricone, um dos maiores gênios da música para o cinema de todos os tempos, de quem o cineasta é admirador confesso e sempre usou faixas de suas trilhas antigas em seus filmes, algo que nem sempre funciona e muitas vezes tem efeito contrário ao desejado. Morricone escreveu sua nova partitura diretamente para o roteiro, muito tempo antes do filme ficar pronto (como era comum nas obras de Leone) e Tarantino editou o filme sobre a música (normalmente o processo é o oposto desse). Isso dá a “Os Oito Odiados” uma outra dimensão, pois a música tem papel fundamental no desenrolar da trama e o filme respira em cima dos tempos compostos por Morricone. 


Morricone e Tarantino, juntos afinal
Uma curiosidade sobre a música é que, além de algumas canções anacrônicas usadas no filme como é comum na obra de Tarantino, algumas faixas rejeitadas da trilha sonora de “O Enigma de Outro Mundo”, do próprio Morricone, foram usadas em “Os Oito Odiados” de forma extremamente marcante. O que não deixa de ser muito interessante, pois o longa de John Carpenter tem muita relação com o novo filme do Tarantino, já que ambos se passam dentro de um local isolado no meio da neve onde o clima de paranoia e falsas identidades é a mola que impulsiona as tramas. Além, é claro, de serem ambos estrelados por Kurt Russel, sempre carismático.

Falar do elenco de “Os Oitos Odiados” é chover no molhado. Tarantino é sem dúvida um excelente diretor de atores e aqui isso fica mais do que evidente, onde todos estão ótimos em seus papeis, especialmente Samuel L. Jackson, que rouba o filme como sempre, sem nunca se repetir. Até o pouco conhecido Walton Goggins, como o suposto xerife de Red Rock, convence plenamente e a sempre excêntrica Jennifer Jason Leigh vira o diabo em pessoa quando o roteiro assim pede.


É impressionante também como Tarantino muda o tom do filme de uma sequência para outra sem perder o fio da meada. Durante todas as cenas entre os odiosos do título, o clima é de humor negro, com a violência explodindo de tempos em tempos e o sangue jorrando em profusão como efeitos sempre cômicos (a cena em que vomitam sangue me fez rir muito, parecia coisa do Monty Phyton!). Mas, quando os atos de violência atingem pessoas “inocentes”, o clima é de puro horror e cada bala que fura o corpo de um dos personagens parece atingir a plateia de forma brutal.

O tema “ódio racial” é muito bem usado no filme, bem diferente do que aconteceu em “Django Livre”, onde o excesso de verborragia e auto-indulgência acabavam provocando o efeito contrário. A cena em que o caçador de recompensas vivido por Jackson conta como matou um de seus perseguidores e sua conclusão é antológica.

Algo que me chamou a atenção no roteiro foi a forma como Tarantino usou para pedir desculpas pelo excesso de seus filmes anteriores, onde defendeu a tese de que qualquer pessoa que apoiou ou usufruiu da escravidão ou de outro regime deplorável desse tipo pode e deve ser sumariamente executada por um "anjo vingador", algo moralmente intolerável, pois é fácil hoje condenar quem se apropriou do trabalho escravo, porém é preciso lembrar que naquela época a escravidão era algo permitido por Lei.

Assim, Tarantino coloca na boca do personagem de Tim Roth uma belíssima defesa do Estado Democrático de Direito que vai na contramão do que ele endossou em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”. Será que ele leu minha crítica? Óbvio que não, mas certamente muita gente reclamou disso mundo afora e ele provavelmente tomou ciência.

Se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem uma fotografia espetacular e foi todo rodado em Panavision 70mm. Estranhamente, “Os Oito Odiados” não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo sempre estranho de se ver e que apenas demonstra a dificuldade imensa que algumas pessoas tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade atualmente. Uma pena.

Cotação: * * * * *

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