quinta-feira, 2 de abril de 2015

Filmes: "Relatos Selvagens"

PORRADA NA CLASSE MÉDIA

Filme é retrato brutal da mentalidade daquele extrato social que sonha que "um dia vai chegar lá"

- por André Lux, crítico-spam

É impressionante a vitalidade do cinema argentino, sempre pronto a nos surpreender com uma nova produção inusitada e original que quase sempre entretém, mas também faz pensar.

É o caso desse notável "Relatos Selvagens", que é um retrato brutal do que se pode chamar de "mentalidade de classe média", aquele extrato social que acha que vive espremido entre os podres de ricos e os pobres, enquanto sonha que "um dia vai chegar lá" sem perceber que, de fato, está a dez mil passos dos primeiros e a míseros dez dos segundos.

Escrito e dirigido por Damián Szifron, o filme é uma comédia de humor muito negro, que não tem medo de dar uma bela porrada nos classe-medianos e de expor seus maiores defeitos e também o seu retumbante falso moralismo. 


Dividido em seis episódios sem relação um com o outro, "Relatos Selvagens" coloca em cena situações limites que evidenciam algumas das características mais patéticas, violentas, assustadoras ou simplesmente podres das pessoas ditas comuns.

Não dá para comentar a fundo os episódios sem estragar as surpresas de cada um deles, mas basta dizer que abordam questões corriqueiras na vida de qualquer um dos autoproclamados "cidadãos de bem" que, pelo jeito, são comuns em qualquer grande metrópole do mundo. Ou seja: os "coxinhas" estão por todos os lados!


O mantra dos coxinhas: "Sou contra 
a corrupção... dos outros, é claro"
Temos ali a propina e a corrupção nossa de cada dia que só gera indignação quando são os outros que as cometem, o desejo de vingança e retaliação que cega e destrói, a alienação política gerando atos de revolta inúteis e autodestrutíveis, a traição como forma de manter relações motivadas por aparências e a incapacidade de lidar com problemas psicológicos de maneira responsável e que joga sempre nos outros a culpa.

Tudo isso vem embrulhado num pacote cinematográfico requintado, com direção e diálogos primorosos, atores excelentes, edição perfeita e, como já disse, um humor negro afiadíssimo e brutal, que chega a chocar em alguns momentos, principalmente nos episódios da briga entre os motoristas e do casamento.

Engraçado é ler as críticas por aí exaltando o filme, mas sem nunca mencionar os ácidos comentários sociais sobre a mentalidade mesquinha e a hipocrisia da chamada classe média. Sinal de que a ironia e o humor finos estão cada vez mais ininteligíveis para a grande maioria das pessoas, infelizmente...

Cotação: * * * * *

Um comentário:

Anônimo disse...

Que importa o excelente cinema argentino? Nós temos a globo filmes... (ironia mode on)

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